Finalmente assisti, no fim de semana, ao dvd do documentário “Joe Strummer: the future is unwritten”, do diretor inglês Julien Temple. O filme é comovente e muito bacana não apenas para fãs de Strummer e do The Clash mas também como um retrato dos movimentos musicais e artísticos pelos os quais Strummer passou e viveu: contracultura dos anos 60, punk nos anos 70, o final do mesmo nos anos 80 e o nascimento das raves e música eletrônica nos anos 80/90 – no filme, há uma cena brilhante de Strummer contando sua primeira experiência em uma rave.
A vida de Joe Strummer é contada através de fotos e filmes – desde a infância privilegiada como filho de um diplomata, aos anos de adolescência hippie, até imagens raras dos primeiros ensaios do The Clash – e depoimentos de amigos e pessoas que, de alguma maneira, foram influenciadas pelo The Clash. Uma das coisas mais bacanas do filme é que a narrativa é toda na voz do próprio Strummer, com trechos de antigas entrevistas e também locução e parte da trilha sonora tirados de London Calling, um programa semanal que Strummer apresentou para a BBC World Service, entre 1998 e 2002.
Temple mostra no filme que não foi fácil para Strummer se reinventar através da vida. De família privilegiada, conheceu o movimento hippie no final dos anos 60, quando foi morar em squats no oeste de Londres e fundou um movimento social para dar moradia aos pobres da região. Na mesma época, formou a banda 101′ers. Em 76, viu o Sex Pistols tocando e conheceu o movimento punk, mas como ele mesmo diz no filme “ou você era punk, ou era contra”. Entāo, para se encaixar, parou de escovar os dentes “para ser aceito como punk, basta ser feio” e passou a ignorar os amigos de anos. Com a fama do The Clash, Strummer começou a questionar se eles ainda eram a banda que queriam ser e, muitas vezes, era um líder autoritário.
O filme, claro, tem várias imagens do The Clash em shows e entrevistas durante os 10 anos de existência da banda. Com o final do The Clash, Strummer passou anos em reclusão, primeiro exilado em Granada e depois participando de filmes obscuros e tocando apenas como convidado em bandas de amigos, como o The Pogues. Chegou a gravar um disco solo, mas foi somente com o surgimento da sua última banda, os Mescaleros, em 1999, que voltou de vez à cena musical. Há um depoimento de uma amiga que conta como Strummer ficou deprimido em ver que, na Guerra do Golfo, soldados americanos pintavam a frase “Rock the Casbah” em mísseis antes deles serem lançados sobre o Iraque.
Nos últimos anos de vida, Strummer fez as pazes com antigos amigos e sua origem hippie, quando fundou a mais famosa fogueirinha de Glastonbury. Em um bilhete enviado a um amigo que não via há 25 anos, Strummer escreveu: “Nada mudou. No fundo, somos todos hippies no coração. Venha para a minha fogueira, adoraria te ver aqui.” Com Mick Jones, tocou apenas mais uma vez depois do fim do Clash, em um show em apoio aos bombeiros, em novembro de 2002.
Strummer era um artista brilhante, mas também um cara comum, que errou, aprendeu com os erros e continuou a viver. No último áudio do filme, Strummer reflete: “as pessoas podem mudar tudo o que quiserem, e eu quero dizer qualquer coisa no mundo. As pessoas vivem com pressa, seguindo suas pequenas trajetórias. Eu sou uma dessas pessoas, mas nós precisamos parar… As pessoas podem fazer qualquer coisa, isso é uma coisa que eu estou começando a aprender. As pessoas estão lá fora fazendo mal uns aos outros, porque elas estão desumanizadas. É tempo de tomar a humanidade de volta ao centro do ringue. Ambição não leva a nada. Eles deveriam escrever isso em um grande telão da Times Square. Pense nisso: sem pessoas, você não é nada.”
Para quem quiser ouvir alguns dos programas que Strummer apresentou para a BBC e que foram usados no documentário, o Public Radio Exchange é um website bacana que disponibiliza programas de rádio para serem ouvidos via streaming. Tudo o que você precisa fazer é criar uma conta (é de graça) e procurar por Joe Strummer’s London Calling. Eu recomendo.

2 respostas Até agora ↓
Ricardo // Julho 16, 2008 às 2:01 am
putz, acho que esse filme passou ano passado num festival aqui, mas eu perdi. sou doido pra ver a bagaça. mas essa de nao escovar os dentes, seja punk mas nao seja porco, strummer!
beijo
gboeing // Julho 16, 2008 às 5:52 pm
o filme eh muito bom mesmo, perdeu. bom, deve ter em dvd por aih, nao?
beijo